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Cadê o chão que estava aqui?

Ana Maria Prandato - 06/07/2001


I - O preço do crescimento

Onde estou?!!

Toda situação tem vários lados e toda visão está sujeita ao olhar que a vê - nossa inteligência compreende isso muito bem. O caso é que podemos estar viciados numa determinada posição, vendo tudo pelo mesmo ângulo, sem nos darmos conta disso. A partir desse nosso modo de ver e de interpretar a vida, construímos idéias de realidade que talvez não sejam tão reais assim. E nesse mundinho ilusório nos limitamos, lutando para que não desabem os nossos castelos de areia - não raro engenhosos e mal-assombrados castelinhos - na falsa impressão de segurança que costumamos alimentar diante até mesmo do "mal" que já é conhecido. Êta medo do novo! Sofremos feito condenados, mas não arredamos pé. Até que a vida, que não condena ninguém a nada, e que parece não ter nenhuma simpatia por atitudes de auto-condenação, resolve demonstrar que não está para esse tipo de brincadeira, e puxa o tapete onde, contentinhos, brincávamos de teatrinho...

Tragédia? Não, crescimento. Crescer, entre outras coisas, significa ampliar o campo de visão e conhecer novos pontos de vista. Significa, principalmente, reconhecer as próprias ilusões, para poder ultrapassá-las, subindo mais um degrau nesse caminho pelo qual se aprende a ser totalmente feliz.

Xiii... Esse papo de reconhecer ilusões, de novo! Esse papo de ter de mudar por dentro, de balançar as estruturas, pra ver se são sólidas mesmo; esse papo de mudar a ordem das coisas... bagunçar tudo... ou arrumar tudo... É engraçado, né? Em certos aspectos somos fanáticos pela organização, pelo "como deve ser", e incluímos até o comportamento das outras pessoas nas nossas regrinhas; em outros, preservamos com unhas e dentes a nossa "desordem liberal", como aqueles que odeiam quando alguém mexe na sua mesa de trabalho, por exemplo, na tentativa de limpá-la ou organizá-la, alegando que, na bagunça ali estabelecida, conseguem encontrar tudo prontamente, ao precisarem... Mas isso não é manter uma ordem dentro da desordem?

É verdade que podemos viver do jeito que bem entendermos. Mas é verdade, também, que nos cansamos de viver de jeitos insatisfatórios, infelizes. A vida vai ficando chata, sem brilho, sem gosto, sem graça. Vamos ficando desanimados, o prazer vai diminuindo, e tudo vai se tornando muito pesado e complicado... Isso quando nossas ilusões não se desfazem de um momento para o outro, feito bolhas de sabão, e nos estatelamos em tombos dolorosos e inevitáveis. Sentimos que precisamos mudar em alguma coisa, mas nem sempre nos decidimos a isso de imediato. Por mais que fujamos das mudanças como o diabo foge da cruz, sempre acaba surgindo um belo dia em que a conclusão chega com aquele tom de xeque-mate: é mudar ou mudar. Aí, se correr, o bicho pega; se ficar... Pois é. Mas agora ainda podemos optar - e mudar - de livre e espontânea vontade...


II - Vai doer?

Quem já lidou com crianças certamente ouviu por muitas vezes essa pergunta. É uma maneira de elas expressarem que estão com medo diante de uma situação nova, da qual sentiram que não poderão escapar, mesmo chorando ou esperneando - uma injeção, um curativo, um tratamento dentário ou um simples corte de cabelo, que seja. Apesar de saberem que algumas dessas coisas doem, muitos adultos preferem mentir, na tentativa de enganá-las - e assim resolvem a primeira fase dessa questão, criando, contudo, uma série de problemas posteriores - porque aquilo que dói, dói... não adianta dizer que não. A própria criança vai constatar... Não é mais honesto e mais fácil dizer que vai doer um pouco, sim, mas vai passar? E que ela pode agüentar, e ficará melhor, depois que passar? E, ainda, que estaremos por perto, fazendo tudo aquilo que pudermos para que ela fique bem?

Diversas linhas espiritualistas afirmam que a Humanidade, na Terra, está agora passando da idade infantil para a adolescência. Pode ser que você não acredite em nada disso, e o nosso objetivo aqui não é convencê-lo de nada; mas, querendo, experimente esse ponto de vista. Se você tem filhos, sobrinhos, alunos, ou qualquer outro contato com adolescentes, sabe muito bem como é essa passagem, vista de fora. Há uma grande necessidade de auto-afirmação, que muitas vezes se traduz por rebeldia e por atitudes desafiadoras; há uma procura pela própria identidade, pelo jeito próprio de ser; há o desejo de ser aceito e o pavor de ser rejeitado; há a arrogância querendo encobrir a fragilidade; há o despontar da consciência de que existe um mundo novo a conquistar e um mundo conhecido a deixar para trás; há uma grande aprendizagem a ser feita por ensaio e erro, até que se chegue à maturidade (o que não significa que deixaremos de errar); não é assim? Se estivermos na função de orientadores, nesse momento deles, e se assumimos essa função por uma vontade sincera do nosso coração, poderemos compreender que esse é um período bonito na vida do ser humano, ainda que instável e muitas vezes conturbado, e que é possível facilitarmos as coisas agindo com firmeza, com integridade, mas sem nos esquecermos de uma grande porção de ternura, concorda?

Pois então voltemos um pouquinho e pensemos em nós mesmos (aos trinta, aos quarenta, aos sessenta, aos oitenta, não importa qual seja a nossa idade cronológica). Pensemos em nós como adolescentes cósmicos - agora com a responsabilidade de nos educarmos e de nos orientarmos nessa transição. Não é interessante? Muitas das nossas dúvidas, muitos dos nós que nos atormentam, não ficam mais "solucionáveis", por esse ângulo? Vamos ampliar um pouco este exercício, pensando nos nossos parceiros - namorados, namoradas, maridos, esposas, parentes, amigos, sócios, clientes, vizinhos, "autoridades", líderes - todo mundo no mesmo barco, em plena adolescência cósmica! Muitas coisas não ficam mais claras, mais compreensíveis? E pensar que tantas vezes achamos mais seguro confiar nos outros, do que acreditar naquilo que sentimos...

Se até aqui estamos de acordo, olhemos para nós como seres que vivem o tempo da adolescência espiritual - com todas as inquietações e com todas as belezas próprias dessa fase - lembrando do quanto precisamos da nossa firmeza, da nossa integridade e da nossa ternura. Lembremos, também, que não adianta mentirmos para nós, dizendo que não doem as coisas que doem. Procuremos entender melhor: enxergar as próprias ilusões pode doer, mas não será a verdade que estará causando a dor. A causa da dor é a desilusão, que só pode acontecer se estamos iludidos, é evidente. Deixando de dar força para as nossas ilusões, estaremos diminuindo em muito os motivos dos nossos sofrimentos.


III - Pode até doer um pouco, mas não precisa ser sinistro!

É comum evitarmos esses assuntos de mudanças interiores porque eles nos fazem lembrar de conceitos religiosos ou doutrinários, geralmente impostos de maneira contundente, sisuda, cheia de pesar. É natural, portanto, que nos esquivemos desse peso desagradável. Mas, quem disse que precisa ser assim? Seguramente, podemos tratar de questões profundas conservando o bom-humor, percebendo os lados cômicos que elas podem ter e, principalmente, aproveitando para aprender a rir de nós mesmos. Estávamos iludidos? Cismamos que as coisas eram de um jeito e elas se revelaram de outro? Fizemos papel de tolos? Todos vão rir às nossas custas? É isso mesmo, e daí? Daí vamos rir também, que a dor passa mais depressa! (Se você já levou um tombo em público, ou viu alguém levar, já sabe como isso funciona.)

Talvez seja no campo dos relacionamentos humanos, mais ainda nos afetivos, que as ilusões se propaguem com maior intensidade . Quando nos decepcionamos com os outros, quando tentamos mudá-los, quando nos tornamos dependentes deles, esperando por atitudes ou palavras suas para nos sentirmos bem, pode apostar que estamos cultivando ilusões.

É importante observarmos que o preço da ilusão corre sempre por nossa conta. No que se refere a nós, as outras pessoas envolvidas não têm nada a ver com isso. Nós é que fizemos idéias a respeito delas, sobre como elas são, sobre como elas pensam, sobre como elas sentem, sobre aquilo que elas poderiam ou "deveriam" nos dar, e assim construímos as nossas expectativas que, evidentemente, são insustentáveis perante a realidade. Não é à toa que grandes desilusões provoquem em nós a sensação de perder o chão. Não estávamos, mesmo, no chão - apenas descobrimos isso.

Mas, e aí? Algum alarme disparou na sua consciência? Na minha também, acredite! Dezenas deles? Anime-se! Não é nenhuma sangria desatada. Não é preciso sair por aí acabando com relacionamentos ou tomando atitudes drásticas. Não é questão de mudar situações fora, mas sim dentro de nós, mais uma vez. Fomos nós que fizemos os fatos como estão, e somente nós poderemos modificá-los.

Se estamos dispostos a mudar alguma coisa, podemos começar a pensar nas pessoas de um jeito diferente, mudando a nossa atitude com relação a elas - apreciando o seu modo de ser, reconhecendo suas qualidades, seus pontos positivos, e também suas limitações - sem fantasiar a respeito delas, sem fazer do relacionamento um provedor de necessidades pessoais, mas compartilhando as experiências que se apresentem com a maior naturalidade possível, sendo como somos e aceitando que elas sejam como são. Assim, todos estaremos mais livres, mais desarmados, para desfrutar de todo o bem e de todo o prazer que esse contato possa proporcionar realmente, a cada momento, sem que se perca tanto tempo com os desapontamentos e com as picuinhas costumeiras. Parece bom? Ótimo!

E para aqueles casos em que descobrimos que exageramos muito na dose, a ponto de inventarmos o tal do príncipe onde não havia sequer um digno sapo (ou qualquer outra figura de linguagem nesse sentido), ainda temos uma tábua de salvação - pensando bem, pode ser melhor trocá-la por um pára-quedas... - repita comigo (este "repita comigo" é em tom de brincadeira, é claro, o que não invalida os fundamentos verdadeiros das palavras que se seguem): "Vai doer um pouco, sim, mas vai passar. Sei que me sentirei melhor, terei crescido um tanto a mais, depois que passar. E garanto pra mim que estarei comigo, do meu lado, me dando força ternamente, fazendo tudo aquilo que já posso, para que eu fique bem."

Afirme verdadeiramente, ponha fé, e pode confiar, pois nisto tudo há uma grande vantagem: as ilusões estão naquele rol de coisas para as quais o benefício que atingimos ao encontrá-las só é suplantado por outro, ainda maior, no instante em que nos livramos delas.




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