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Declaração de Amor - II

Ana Maria Prandato - 17/01/2003


Começar de novo

Continuamos com o tema amor, mais precisamente no que se refere aos relacionamentos afetivos, conforme dissemos antes: "Sabemos que é na área afetiva que acontecem as nossas experiências mais enriquecedoras, e também as mais dolorosas. Então, vamos dar uma olhada naquilo que pensamos sobre o amor - focalizando, aqui, o chamado relacionamento afetivo/amoroso. Vamos rever o que sentimos, e pode ser que encontremos modos de diminuir a frustração, a dor, acabando com a necessidade da "anestesia" e aumentando o prazer e a realização em nossas vidas."

Cabe dizer que algumas pessoas podem discordar de que é na área afetiva que acontecem as nossas experiências mais enriquecedoras, embora concordem que é nela que ocorrem as mais dolorosas. Outras pessoas, ao ouvirem falar de "problemas" nos relacionamentos, podem recordar de tudo aquilo que conhecem das ancestrais e famosas guerrinhas entre homens e mulheres - quando, geralmente, uns põem a culpa nos outros, e o caso é dado como insolúvel. Provavelmente haja, também, mulheres achando que nada mudará, pois não acreditam que os homens se interessem sinceramente por estas coisas - e é bem possível que haja homens achando que tudo isto é coisa de mulher, que tem mania de discutir a relação (isso até já virou piada, não é?)...

Pois bem, cada um na sua... Respeitamos todas as posições diferentes, e colocamos aqui a nossa: aqueles que se identificaram no parágrafo anterior, podem estar bem próximos (se quiserem) de descobrir em si fortes crenças que atrapalham qualquer possibilidade de um relacionamento afetivo melhorzinho, seja com quem for. Até porque todos esses conceitos feministas/machistas, dizendo, por exemplo, que os homens são uns insensíveis e que as mulheres, por sua vez, são complicadas, explicando assim as dificuldades da relação, resumem-se a um monte de crenças que adotamos sem qualquer avaliação muito lúcida. Ao convivermos com amigos ou amigas que optaram pela homossexualidade, observamos que as dificuldades no relacionamento afetivo podem ocorrer da mesma forma que ocorrem numa relação heterossexual - a questão não está, portanto, nos relacionamentos, está nas pessoas - em nós. Para onde formos e com quem estivermos, estarão "rodando" as crenças que cultivamos e que geram as nossas sensações e atitudes.

Vale lembrar que a área afetiva é um dos mais sensíveis canais de expressão, comunicação, renovação, colaboração e troca, a serviço do nosso desenvolvimento pessoal e coletivo. Não há como ignorá-la, depreciá-la, desvalorizá-la, e sairmos ilesos. Sabe quando a vida profissional não deslancha, apesar de ter tudo para o sucesso? Ou quando a prosperidade não "rola", sem que consigamos entender o porquê? Ou quando uma doença não sara, depois de já ter sido tratada de diversas maneiras? Pois a causa pode estar em alguma fonte de desvalorização lá no afetivo (seja referente aos outros, a nós mesmos ou ao próprio relacionamento).

Vamos aos tópicos seguintes, então.


IV - Empacados

* Auto-sabotagem

* Apego/ Culpa/ Medo

* Julgamento

Ao pensar na mera possibilidade de nos vermos imobilizados por muitos dias, meses, seja por uma doença, um acidente ou qualquer outro motivo limitante, já dá uma sensação ruim, não é mesmo? Há tantas coisas que ainda queremos fazer, experimentar, descobrir... Ainda há tanto a ser resolvido, melhorado, mudado. Tanto a crescer, a realizar, a expressar, a conquistar, a viver, não é? Só de nos imaginarmos presos a uma cama, ou num cativeiro, que é um exemplo bem atual, já avaliamos o quanto deve ser triste esse sentimento de "não poder".

Pois é, começamos o nosso assunto neste tom mais grave, porque sabemos que é bem mais comum nos sensibilizarmos por essas situações que aparentemente vêm "de fora", e pegam as pessoas desprevenidas. Não estamos muito acostumados a prestar atenção nos fatos que ocorrem dentro de nós e, quando muito, pensamos vez ou outra neles, "achamos" alguma coisa a respeito e fim de papo - nem percebemos nada. Sentir, mesmo, nequinha.

Você consideraria a possibilidade de estar mantendo cativa alguma parte sua, algum aspecto do seu "eu" original? "Manter cativa" até parece lírico, não é? Tornemos isso mais pé-no-chão: você acredita que pode haver algum pedaço da sua originalidade (do seu modo original de ser) esquecido a ferros num calabouço, julgado e condenado por conduta não adequada? Ou penando feito criança maltratada, amarrado ao pé da mesa pra não fazer mais artes? Ou, ainda, metido numa camisa-de-força, considerado perigoso, muito louco?

Caramba! Como assim? É claro que não! ...Será?!!

Que nada... por que faríamos isso conosco?

Pois fazemos. Num belo dia, damos de cara com um daqueles "acidentes de percurso" que nos machucam profundamente; a dor é forte, quase insuportável. Como não desenvolvemos ainda a capacidade de compreendê-la e de aprender com ela, tomamos as nossas providências na tentativa de afastá-la para sempre, e decretamos o "nunca mais".

Não faz muita diferença se nos prendemos, amarramos, por acreditar que somos perigosos e precisamos de castigo, ou se nos escondemos numa redoma, achando que assim nos protegemos dos outros, que são perigosos - de uma ou de outra forma, estamos imobilizados naquela área da vida - não podemos viver.

Na área afetiva isso acontece bem mais do que imaginamos. Você já brincou de estátua? Então... é como se a brincadeira já tivesse acabado, todo mundo já tivesse ido embora e nós permanecêssemos ali, imóveis, entorpecidos. Passam-se meses, anos (podem passar várias encarnações, se é que você acredita), e não saímos do lugar.

Mas, uma hora, isso começa a chatear. É a bendita vontade da vida plena! Até porque, também, outras áreas da vida começam a emperrar e, ao questionarmos sinceramente o nosso coração, descobrimos que há um forte interesse sendo negado. Percebemos que estamos querendo um bom relacionamento afetivo. Tentamos daqui, buscamos dali, e nada! Se aparece alguma coisa, não dura. Não acontece nada!!! Nos descobrimos empacaaaaaaaaados...

Puxa! Qual será o motivo? Vai ver que é "trabalho" feito. Alguém "nos amarrou"!

Ah, pode apostar nisso! E deve ter sido um trabalho muito bem feito, por sinal. Será que dá pra adivinhar quem é esse "alguém"? Bingo!!! Fomos nós, pra variar...

Segundo a Metafísica atual, quando alguma coisa começa a incomodar é porque é chegada a hora da mudança. Se já fomos do incômodo à vontade de mudar e nada acontece, é que estamos sabotando a entrada do novo em nossas vidas. E isso devido ao apego, à culpa e ao medo. Vejamos como tudo se encaixa: aquilo que já conhecemos, ainda que não seja bom como realização pessoal, costuma dar-nos uma falsa idéia de segurança ou proteção - é como se já soubéssemos o quanto de prazer e o quanto de dor podemos experimentar naquela situação, ou, em outras palavras, é como se sentíssemos que até ali podemos agüentar, controlar, porque as coisas são repetitivas, familiares; mas, dali pra frente, já não temos nenhuma certeza...

Assim nos apegamos às situações, ou às pessoas que fazem parte delas, e rejeitamos qualquer novidade que poderia significar riscos, conflitos, reformulações...

Temos medo. Medo da dor, medo de não agüentarmos a dor... Medo de nos descontrolarmos (pela dor ou pelo prazer), medo de nos deixarmos dominar... Medo de que nos façam de bobos, medo do abandono, do desprezo... Medo de nos entregarmos e de "perdermos o chão", no fim.

Pelo medo do fim, preferimos nem começar... Pelo medo de perder, resolvemos nem ter...

Temos medo daquilo que poderemos fazer conosco, se nos sentirmos culpados novamente: vamos dizer que tenhamos tentado, nos arriscado, e que as coisas não tenham tido um final feliz. Aí nos culpamos, achando que deveríamos ter sido mais cautelosos, menos confiantes, mais "espertos", "diferentes", mais contidos, ou menos isto e mais aquilo... Nos socamos, nos arrasamos energeticamente, até nos sentirmos errados, incompetentes, inadequados - humilhados e ressentidos.

Temos medo, até, de descobrirmos, lá na frente, que não era isso o que queríamos - medo de perder a liberdade, medo do apego do outro.

Fica claro que a base de todo esse sofrimento - incluindo o sofrimento de não viver plenamente aquilo que se quer - está na falta de confiança em nós mesmos, que reflete a falta de confiança na vida. Minimizamos a nossa capacidade de confiar, baseados naquilo que sentimos, e apostamos tudo nos nossos julgamentos. Só que o julgamento é um processo mental que procura o certo e o errado; que condena, que pune, que vinga, tudo racionalmente. Não há vez para o sentimento.

Pra fechar este bloco, uma última consideração importante: ao querermos julgar, perdemos as referências da aceitação, da tolerância, da confiança, do respeito ao direito e à originalidade (com relação aos outros e a nós mesmos) e acabamos praticando a depreciação e a desvalorização. Como, para a Metafísica atual, tudo funciona por meio de forças que atraem e repelem por sintonia, onde há julgamento não há a possibilidade de prêmios (aquelas coisas boas que estamos desejando há tanto tempo). Vale repensar?


V - Deixar ir - O desapego

Mesmo com as nossas diferenças pessoais, até que nos saímos bem ao lidar com as frustrações cotidianas, não é?

Adoramos aquele sapato, na vitrine, mas não tem o nosso número. Ah, que pena... Bom, vamos procurar outro. Estudamos como nunca para aquele concurso, que poderia resultar num bom emprego, mas não entramos. Puxa... ficamos chateados... Mas, tudo bem, uma hora há de dar certo. Nos apaixonamos por aquela casa à primeira vista. Quando conseguimos o financiamento, ela já tinha sido vendida. Ah... queríamos tanto... Bem, paciência... Aparecerá outra melhor. Não é mais ou menos assim?

De um jeito ou de outro, nos conformamos com certa facilidade diante dessas situações que correspondem a um "não". Por que será, então, que as coisas se tornam tão complicadas, tão dolorosas, quando esse "não" acontece na área afetiva?

Digamos que adoremos a bendita criatura; que já tenhamos demonstrado o nosso amor de todas as maneiras possíveis; que a tratemos com ternura, dedicação, calor... Enfim, que estejamos cheios de boa-vontade, acreditando na possibilidade de alguma troca feliz. Mas que, ainda assim, a criatura não queira continuar conosco (às vezes não quer nem começar!). Parênteses: Isso nos faz lembrar de uma frase engraçada - não sabemos o nome do autor - que diz: "Sádico é aquele que faz cafuné no masoquista." !!!

Mas não é mesmo? Se já dissemos tudo o que havia pra falar, se já deixamos tudo claro em atitudes, e o outro diz "não", então é "não". Ou não é?

Xiiii, essa questão pode ser complicada (especialmente para quem ainda acredita em complicação - olha a crença aí!!! :) . Tem o nosso coração, e a nossa cabeça... Tem a cabeça do outro, e o coração dele... Tem os sinais que um manda para o outro, e que podem ter conotações completamente diferentes se recebidos pela cabeça ou pelo coração... Ficamos confusos...

Nos perguntamos porque é que ele não quer (ou perguntamos pra ele, mesmo)... Mas, de que adianta saber? E quem disse que a resposta seria verdadeira? É bem possível que nem ele saiba direito identificar o que é que sente - que resposta tão importante poderia ser essa? Mudaria o quê?

Por que será que ficamos assim, de pires na mão, esperando por um mísero carinho? Por que será que parece tão difícil dizer: "Tá bom, então já vai tarde!" - e virar as costas, e ir cuidar da nossa vida?

Bom, alguma hora vamos ter que bater um papinho com o nosso coração, pra saber se ele está feliz com essa nossa disposição de continuar devotando ao outro esse afeto canino...

Puxa!, queremos dar e receber com a mesma qualidade, não é? Merecemos isso, já sabemos. Então, é deixar ir, é nos desapegarmos, é nos propormos a começar tudo outra vez, com medo ou sem medo.

Na verdade, não há nada que segure aquele que não quer ficar. Mesmo usando de manobras ou artifícios, ninguém consegue prender uma pessoa. Quando muito, poderá garantir por certo tempo a presença física, mas o outro já escapou na energia, nos pensamentos, nos sentimentos. De que adianta?

Deixar ir, portanto, não se refere ao outro - refere-se a nós mesmos. Ele já está lá, nele, na vida dele. É de dentro de nós que precisamos deixá-lo sair... É dizer, sinceramente (não pra ele, mas pra nós): "Vá. Eu te liberto. Eu me liberto. Vá com as minhas bênçãos. Agradeço a sua participação na minha vida. Agora vá."

Dessa maneira, rompemos as ligações, os "ganchos" energéticos que se formam de um para o outro, especialmente quando há sentimentos fortes. Falando em sentimentos, convém lembrarmos que, para a Metafísica atual, a sabedoria está em deixarmos o coração sentir livremente, e usarmos o auto-domínio para controlar a cabeça, os pensamentos. É assim que poderemos atravessar essa fase de desapego de um jeito mais sereno, equilibrado, sem tanta dor.

Mas é bom que tudo isso aconteça de um modo bem consciente, para não fazermos como certos fumantes que, num rompante, jogam fora os cigarros, o isqueiro e todos os cinzeiros da casa - e algumas horas depois estão revirando o cesto de lixo, catando tudo de volta... :)

Bem, se for assim, também estará certo. Nada é tão sério, nem tão definitivo, na vida. Afinal, somos apenas aprendizes, não é? :)




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Tópicos anteriores:

Declaração de Amor - I

I - Do que é mesmo que estamos falando?

II - Amor ou paixão?

III - Quando um não quer, dois não querem.


Nesta edição:

Declaração de Amor - II

IV - Empacados

* Auto-sabotagem

* Apego/ Culpa/ Medo

* Julgamento

V - Deixar ir - O desapego


Próximos tópicos:

VI - Deu tudo errado, de novo...

VII - Ninguém merece

VIII - Deixa pra lá... ou: "As uvas estão verdes..."

IX - O afeto-cabeça e a Internet

X - Realização = Desenvolvimento de potenciais




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